Despedida

iG, 19/307/2012

É dia de despedida. Não porque vou de viagem – às minhas viagens vocês sempre são convidados – mas porque a coluna “Viagens” acaba hoje.

Um ano e alguns meses atrás recebi uma honra que poucos estrangeiros têm: a oportunidade de escrever para o público brasileiro, em português, no momento que Brasil estava começando a se tornar um poder mundial. O turismo, claro, não é um desses temas centrais ao futuro de um país em transformação, como a economia, o meio-ambiente, ou a luta contra a corrupção. Mas faz parte da educação de um povo, e também vira um tipo de diplomacia popular: mudando como o brasileiro enxerga o mundo e como o mundo enxerga o brasileiro. Quem viaja, quanto viaja, e como, importam muito. A viagem, como diz um dos viajantes que mais admiro, o Rick Steves, é um ato político.

Deixar um gringo escrever uma coluna foi uma decisão corajosa dos editores do iG, e pela qual fui criticado várias vezes pelos leitores. Estou muito agradecido pela confiança. A escolha de terminar a coluna não foi minha, mas quem passa a metade do ano na estrada aprende a ser flexível, e fico muito feliz por ter tido a oportunidade.

1Confissão: de algumas coisas não vou sentir falta nenhuma. As noites em claro tentando escrever em um idioma estrangeiro, por exemplo, ou a depressão temporária que sempre me deu quando recebia a versão editada com as (muitas) correções de gramática feitas pacientemente pelos editores. Mas tudo valeu a pena quando saía a coluna e via os comentários dos leitores, e a repercussão que causavam no Facebook e no Twitter.

Nesses comentários, reconheci a mesma paixão, emoção, humor e carinho que valorizo tanto em meus amigos e colegas brasileiros e que são tão diferentes das reações do público norte-americano quando escrevo para ele. Muitos brasileiros também escreveram para reclamar, sobretudo quando escrevia algo sobre o Brasil. E reclamaram muito: quem lembra da coluna “Como ser brasileiro, mas não demais, no exterior”? Alunos de sociologia: acho que os mais de mil comentários dariam um bom tema de tese sobre a identidade brasileira no século 21. Quem topa?

Como ficar em contato comigo?

1) Me seguir no Twitter em português, @tuitesdo7.

2) Me seguir no Facebook. com o nome Seth Kugel. DETALHE: Por favor “assine” a página em vez de pedir “amizade”. Chame-me antiquado, mas amigos para mim são aqueles que conheço pessoalmente.

3) Me conhecer pessoalmente no Rio, no Seminário Viajosfera, organizado pelo blogueiro Ricardo Freire, no final de setembro.

4) Para os que gostam de ler em inglês, minha coluna no New York Times, “The Frugal Traveler, que  sai todas as terças-feiras à tarde. (Também tem um Twitter, @frugaltraveler, e uma página no Facebook.)

5) Ou, para quem não usa Twitter ou Facebook, não gosta ler em inglês, nem vai pro Rio – ou qualquer outra pessoa que queira me contatar diretamente – aí está meu e.mail:seth@sethkugel.com.

O que escrever na última coluna é uma decisão difícil. Mais fácil é o que não escrever: uma lista dos meus lugares favoritos no mundo. Qual é o melhor restaurante de Paris, por exemplo, qual resort do Caribe chama mais minha atenção, qual linha aérea oferece os melhores vinhos ou qual rodoviária do Brasil tem os taxistas mais chatos? Essas dicas você pode encontrar em muitos outros lugares. (Bom, talvez não a dos taxistas chatos, assim que vou fazer uma exceção: é Porto Velho, Rondônia.)

É que, quem depender do meu gosto sobre as coisas finas da viagem, sempre estará perdido. Prefiro um brigadeiro de vendedor de rua ao melhor crème brûlée do restaurante mais clássico da França. Eu mal sei distinguir entre vinho tinto e branco e não conheço quase nenhum resort do Caribe, porque não aceito viagens pagas nem qualquer tipo de “jabá” e, por isso, nunca fico em lugares de luxo.

O que sempre tentei oferecer foi uma filosofia de viagem. Assim que vou tentar resumir aqui os elementos que para mim compõem uma “boa” viagem. Nem seis nem oito, claro, só pode ser Seth Fundamentos da Viagem. Duvido que exista o leitor que concorde com todos; assim que suas sugestões, reclamações e emendas serão bem-vindas, uma última vez, nos “comentários”, lá embaixo.

1-Descobrimento
A existência de mil guias tipo “Lonely Planet” e mil sites como Trip Advisor já nos permitem planejar cada detalhe de nossas viagens. Que chato. Há 15 anos, os guias só serviam para o básico, o viajante tinha que descobrir o resto sozinho, andando, olhando, perguntando. Mas ainda dá para voltar para esse tempo. Pelo menos por um ou dois dias da sua viagem, abandone os guias e explore. Levo na mala agora uma guia “Rough Guides – Escandinávia” comigo (estou na Suécia), mas juro que nem o abri depois de pousar no aeroporto da Dinamarca, seis semanas atrás.

Na semana passada, em Kalmar, Suécia, uma sueca me aconselhou a experimentar o café e o bolo de um lugar que se chama Kullzenska Cafeet. Nossa, que charme: no segundo andar de uma casa do século 19, uma fila enorme de suecos esperava para escolher entre tortas de ruibarbo com framboesa ou amora com pera, ainda quentes do forno, e sentar em cadeiras velhas de madeira. “Que descobrimento!”, pensei. Adorei tanto (a torta de ruibarbo) que voltei no dia seguinte (para prova a torta de amora). Acabo de tirar o “Rough Guide” da mala, e sabe o quê? Está recomendado. Mas o que importa? Descobrir os lugares já descobertos conta – isso se sabe desde as viagens de Cristóvão Colombo.

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Viagem boa é viagem desconfortável. Não, você não precisa dormir em tenda, nem andar de ônibus público de terceira classe pelas montanhas da Bolívia (ainda que recomende as duas coisas). O desconforto de sair da rotina de hotel internacional, restaurante estrelado, bairro chique é vital à viagem. É social. Em um país que você não fala o idioma, entre em uma cafeteria popular que não permite entender onde começa a fila, nem o que tem nos pratos oferecidos, e pergunte. Com sinais, se for preciso.

3Experimente novas atividades: andar de caiaque, visitar um museu de arte contemporânea, assistir um leilão sueco (o que acabo de fazer domingo). E, o mais importante: conversar com desconhecidos em qualquer momento. É só sorrir e fazer uma pergunta, ainda que já saiba a resposta. (“Como chegar ao centro da cidade?”, “Conhece algum restaurante que sirva comida regional?”, “Aqui perto tem uma farmácia?”)

3- Flexibilidade

Esteja sempre pronto a abandonar os planos se algo melhor aparecer. Já fiz uma coluna inteira sobre isto, mas lembrei da importância nesta semana. Na ilha de Öland, Suécia, montei minha tenda em uma área de acampamento lotada com centenas de trailers – essas “habitações sobre rodas” que os escandinavos adoram. A ideia era experimentar a vida típica de uma família sueca em férias. Mas duas horas depois, andava de bicicleta a 20 quilômetros dali, pelo vilarejo bonitinho de Resmo, onde passei pelo que parecia um sítio com vários prédios. Em uma placa em sueco só dava para entender a maior palavra: “RUM” (“Quarto disponível”). Alguém tocava piano em um celeiro convertido em capela. Ele explicou que o sítio era uma pequena pousada administrada pelo EFS, uma parte da igreja Sueca.

4Entrei para aprender mais e descobri algo fascinante: a pousada não tinha um gerente permanente: cada semana, uma família diferente chega e cuida do lugar. A família da semana passada era um casal, o filho e a nora, e duas netas pequenas, Alma e Elba. O preço de um quarto era 390 kroner (R$ 115). Claro que voltei ao acampamento, levei minhas coisas embora, me instalei na pousada e virei amigo da família inteira. Bom, não imediatamente: a filha Alma, de 5 anos, ficou meio-chateada por eu não conseguir responder as perguntas que ela me fazia em sueco. Mas quando a mãe chegou e explicou que eu só falava inglês, me disse o que imagino ser a única frase em inglês que ela sabe falar “I love you”.

4-Risco
Há vários tipos de risco. Você pode quebrar a perna ou perder R$ 5 mil? Então não faça. Mas, e se o pior perigo for não gostar do prato que pediu? Ou passar uma tarde ruim? Ou perder duas horas porque decidiu desviar por um caminho que parecia interessante, mas não foi? Viajar sem correr esses riscos é pior do que ficar em casa.

Sexta-feira passada fui assistir a um jogo de futebol, o do Kalmar FF contra um time da Irlanda, no estádio de Kalmar. Mas pedi minha entrada. Uma senhora achou, pelo meu inglês, que eu era um dos 50 fãs irlandeses que tinham tomado vários vôos, mais um trem, para vir de Belfast para ver o seu time, e me mandou para a seção dos irlandeses. Uns loucos que não pararam de cantar e gritar palavrões aos árbitros enquanto faziam mais barulho que os 10.000 torcedores do time anfitrião. Foi desconfortável iniciar uma conversa com esses malucos? Foi. Mas nem eram tão malucos como eu pensava. Me convidaram para tomar cervejas com eles depois do jogo, e quatro horas depois ainda estava no bar com meus novos amigos irlandeses que continuavam a celebrar. Detalhe: o time perdeu de 4×0. A celebração era pela viagem.

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5- Independência
Tours organizados às vezes são necessários. Difícil andar de safári na África sem um guia, por exemplo. Mas na maioria das viagens, não precisa. Sei que os pacotes são sedutores – tudo planejado, intérpretes prontos, ônibus esperando em cada lugar. Mas um pacote é como uma pizza congelada. Vem pronta, não precisa pensar, só botar no micro-ondas e comer. Com certeza a pizza sairá razoavelmente boa. Mas e se você decidir fazer sua própria pizza, com massa feita em casa, os ingredientes que você quiser (orgânicos? vegetarianos? importados?), tirada do forno no momento certo? Ou sai ótima, ou sai ruim. Quando sai ótima, é mil vezes melhor do que a pizza congelada. E, quando sai ruim, dá para contar a história da sua pizza para todo mundo (“Os problemas começaram quando decidi botar uma gota de chocolate em cima de cada anchova…”) Quem quer ouvir histórias de uma pizza congelada?

6- Criatividade
Não tem dinheiro, nem tempo, para viajar para longe? Viagens podem ser locais. Uma das tendências de viagem hoje é a “staycation”, ou seja, fingir ser turista na sua própria cidade. Ótima ideia para meus amigos paulistanos que já conhecem Londres e Paris, mas nunca exploraram a Zona Norte de São Paulo (e pegar a Marginal Tietê para Guarulhos não vale). Maravilhosa ideia para os meus amigos cariocas que conhecem cada cantinho de San Francisco e Las Vegas, mas nunca entraram em uma das favelas pacificadas do Rio. (Vale até o elevador de Ipanema para Pavão/Pavãozinho e Cantagalo, para os mais preguiçosos.) Ah, e vocês que moram em Manaus, Belém ou Santarém e nunca penduraram a rede num dos barcos populares que andam pela região, estão esperando o quê?

67- Humanidade
Fiz um exercício mental recentemente e o resultado me surpreendeu. Pensei em vários destinos que visitei recentemente para ver qual seria a primeira imagem mental que me vem. Em cada lugar era um rosto. Na Albânia, o do dono de um restaurante que me convidou a pescar. Na Turquia: o do rapaz que tocou música tradicional turca na casa da família e me convidou a almoçar. Em Roma, o vendedor de fruta que me deu uma laranja de graça quando soube que eu era de Nova York, para onde a família dele migrou décadas atrás. Em Manaus, a linda dançarina de forró que… humm, acho melhor deixar essa história sem contar. Não é que não aprecio as belezas da natureza, da arte e da arquitetura. Meu computador está cheios dessas imagens. Mas na minha mente, que tem megabytes limitados, se armazenam principalmente as imagens de pessoas.

Para concluir, acho que vale a pena notar como uma viagem pode mudar o rumo da sua vida. Esta coluna foi resultado indireto de uma viagem que fiz em 2004, entrando no Brasil pela primeira vez pela fronteira colombiana, a bordo do barco Fernandes II, com uma rede e uma gramática portuguesa. Essa viagem virou tema da minha primeira matéria de viagens, e, quatro anos depois, mudei para o Brasil para escrever sobre a economia, a política e a cultura do seu país. Dois anos depois, em 2010, quando saí para virar jornalista de viagens para um veiculo norte-americano, tive a ideia de também fazer uma coluna de viagens especialmente para o público brasileiro.

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As viagens nem sempre têm consequências tão profundas. Mas se chegam a abrir a mente, causar prazer, fomentar amizades e inculcar a apreciação pela beleza e a diversidade do planeta que compartilhamos, isso já não é suficientemente profundo para valer a pena?

Um abraço para todos, e nos vemos aí pelo mundo.