Toda cidade tem seu “esquilo”

iG, 19/10/2011 1

Esta foto tirada em um parque nova-iorquino provoca qual reação em você?

a) Um esquilo! Que liiiiiiiiiiindo! b) Nossa!!! Fofura!!! É Tico! Ou Teco! Ou Alvin! c) E daí? O fotógrafo disparou sem querer?

Quando eu levo um amigo estrangeiro para um passeio por Nova York, tento fazer todo o possível para desenhar um tour feito sob medida, com tudo o que eu acho que ele vai adorar.

Mas sempre esqueço uma das maiores atrações da cidade para muitos turistas estrangeiros: os esquilos.

É que na pergunta que inicia a coluna de hoje, a maioria dos turistas brasileiros que eu conheço responde “a” ou “b”. E a resposta de 100% dos nova-iorquinos é “c”. Por isso, às vezes, me pega de surpresa quando estou explicando algum fato histórico ou detalhe cultural para um amigo e ele enxerga um desses bichos correndo pela grama e me interrompe.

“Uuuuuuuuuaaaaaaaaaaaaauuuuuuuuuuuu”, grita deslumbrado, tirando a máquina da bolsa e se aproximando, empolgado para botar uma foto do bicho no Facebook para todo mundo curtir. O esquilo, acostumado a ser desconsiderado totalmente pelos nova-iorquinos, se assusta e sobe correndo na árvore mais próxima. O que excita ainda mais o turista.

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“Subiu na árvore, que bonitinho!!!!”

E se o esquilo começa a comer uma bolota ou uma castanha, esquece.

“Aaaaaaaaaaaaaa!!!”

O termo técnico para esta reação é “orgasmo turístico”.

Para mim é muito interessante ver as diferenças do que o residente local acha que o turista vai gostar, e o que ele gosta de verdade. Eu também gostei dos esquilos em algum momento da minha vida – quando tinha dois anos e andava no parque com minha mãe, gritando “Mamãe, esquilo!”.

O exemplo é de Nova York, mas a lição é global: os aspectos que os turistas mais gostam de um lugar podem ser, para os que moram no lugar, a coisa mais mundana do mundo. Em Paris, adoro ver todo mundo andando na rua com baguete quente para levar para casa (e se a pessoa está de bicicleta, pego a máquina para tirar foto). Apesar de ser, para o parisiense, o ato mais cotidiano imaginável.

Quando estava em Segóvia, Espanha, comentei com um residente que o bairro onde ele morava tinha a vista mais maravilhosa do castelo da cidade. Ele me falou que ele às vezes nem lembrava que o castelo existia. E esse é um castelo maravilhoso, não um esquilo nem uma baguete comum.

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Daí vêm duas conclusões complementares. Primeiro, que nem sempre um residente local é o melhor guia: às vezes ajuda ter dicas de alguém de fora que compartilha seu ponto de vista. Segundo, os residentes de um lugar podem aprender sobre sua própria cidade (e sua própria cultura) com os turistas. Eu, por exemplo, evitei por muitos anos subir no Empire State Building. Que coisa chata e turística, pensei. Mas ao final, fui com uns amigos que visitavam a cidade, e, surpresa! Gostei. Também aprendo muito sobre a cultura da cidade com os amigos que chegam de outros países e fica surpreso com algum aspeto da cultura nova-iorquina. Até comecei a apreciar os esquilos. Pelo menos mais que minha mãe. É que estou escrevendo a coluna de hoje na casa dos meus pais, em Boston, onde também há esquilos em toda parte. Quando minha mãe perguntou o que estava escrevendo, expliquei que era sobre a fascinação que muitos turistas sentem pelos esquilos. “O quê?????” ela gritou, quase tão surpresa quanto um turista brasileiro que enxerga seu primeiro esquilo. “Para mim são o inimigo. Lembram ratões.” Entendo a surpresa dela. Demorei muito para entender. Quinze anos atrás passei um tempo em El Salvador, um país “esquilo-deficiente”. Lá comecei a namorar uma menina salvadorenha que depois veio me visitar em NY. Apaixonou-se loucamente pelos bichos, tirando mais fotos deles do que de mim. E oito anos atrás, entrevistei o Juanes, um roqueiro colombiano, em Washington (outra cidade de esquilos infinitos). Fiz a entrevista no carro dele e depois me convidou para ver um ensaio da banda. Andando do estacionamento ao teatro, ele viu um esquilo na grama. Parou, olhando fascinado. “Que lindo!” disse. Um dos maiores músicos da América Latina, no alto da sua fama, fascinado por um bicho tão comum que no meu país se considera um ratão com rabo? Começou a cair a ficha. Até tenho uma dica para os fãs do esquilo: em Nova York, vá no Battery Park, em Manhattan (onde se pega o barco para a Estátua da Liberdade). Os esquilos locais são tão acostumados aos humanos que até comem nas mãos dos turistas. Sobre esquilos e sucos de laranja 3

Será que toda cidade tem seu próprio “esquilo,” algo comum e corrente, que os turistas adoram? Paris tem a baguete. Segóvia, o castelo. E minha outra cidade, São Paulo? Que coisa totalmente normal para o paulistano poderia ser interessante para um gringo?

Não posso falar pelos demais gringos, mais para mim é o suco de laranja. Nos EUA os sucos de laranja naturais e feitos na hora são quase inexistentes. E, nos poucos lugares que fazem, são muito caros. Mas em qualquer lanchonete de São Paulo você pode pedir um suco e o cara pega quatro ou cinco laranjas para espremer. Incrível!!!! (Concorda comigo? Não, né?)

Adoraria saber a) se vocês concordam comigo e b) quais são os “esquilos” de outras cidades do Brasil e do mundo. A seção de comentários está aberta para suas ideias.

Mas, primeiro, preciso aclarar uma coisa. Acho que parte do encanto que o brasileiro sente pelos esquilos é o amor que ele tem pelos desenhos “Tico e Teco” e pela animação “Alvin e os Esquilos”.

Tico, Teco, Alvin e os amigos…não são esquilos. São tâmias, ou seja, “chipmunks” em inglês. A prova está no nome original “Alvin and the Chipmunks” e no nome em inglês do Tico: Chip.

Tecnicamente, o “chipmunk” é um tipo de esquilo. Mas o esquilo comum de Nova York é o esquilo arborícola, e é tão diferente do chipmunk quanto um lobo é de um poodle. Ou seja, esses esquilos do Central Park não são os mesmos que cantam esta versão maravilhosa de “Baby” do Justin Bieber. Até duvido que os esquilos do Central Park cantem sob qualquer condição.

Duas boas notícias. Os fãs de Tico, Teco e Alvin ainda podem ver os “chipmunks” em Nova York, só que é mais difícil. É que eles são mais tímidos que os esquilos e mais difíceis de encontrar. Mas pelo menos há uma boa notícia: se você estiver andando com um amigo norte-americano e vocês encontrarem um “chipmunk”, pode gritar e tirar fotos à vontade: nós também achamos fofinhos.